“Vencendo a pandemia, teremos muitos pacientes sequelados”, afirma pneumologista

"Vencendo a pandemia, teremos muitos pacientes sequelados", afirma pneumologista

Em tempos de queimadas e friagem, o pulmão sofre com a sobrecarga de trabalho. Somado a isso, em 2020 o Brasil vive uma pandemia de Covid-19, doença que ataca principalmente o órgão.

Um dos médicos mais experientes em sua área em Cuiabá, o pneumologista Clóvis Botelho alerta para os riscos do tempo ruim, que pode facilitar a infecção e potencializar os danos da Covid.

“Qualquer virose respiratória pode piorar. Primeiro você tendo a sua via aérea já comprometida, inflamada, a aderência e a multiplicação do vírus é maior, poque você não tem nenhuma defesa, ela já está toda deteriorada. Então o vírus entra e se agrava”, diz o especialista.

Botelho também alerta para as sequelas da Covid, que podem aparecer em pacientes graves e até mesmo naqueles que tiveram sintomas leves. “Então, vencendo a pandemia, nós vamos ter muitos pacientes sequelados pelo coronavírus”.

Leia os principais trechos da entrevista concedida nesta semana.

MidiaNews – Que tipo de consequências esta quantidade de fumaça pode trazer a curto e a longo prazos para o pulmão das pessoas?

Clóvis Botelho – Nesse período do ano são vários fatores que potencializam o dano respiratório. Primeiro é a umidade baixíssima, altas temperaturas e junta-se isso as queimadas. E a queima da da biomassa, da vegetação, cerrado ou mata, espalha na atmosfera numerosos gases, principalmente o carbônico. E junto com os gases sobe também muito material particulado, que vão fazer parte do ar que vamos respirar neste período. Então, todo tipo de doença pode acontecer, as mais frequentes são as inflamatórias, como sinusite, bronquite, traqueite, bronquiolite até chegar às pneumonias.

Isso é o mais visível, que as pessoas reclamam normalmente. Porém quando você irrita as vias aéreas e exaure o trabalho do pulmão, ele começa a trabalhar em sofrimento e nesse estado ele libera muitas moléculas inflatórias que ficam circulando e vão para todo o organismo. E ao chegar onde há áreas vulneráveis e inflamadas, ele vai piorar aquela inflamação.

Nesta situação, estudos mostram que nos períodos de maior poluição e queimada cresce o número de mortalidade por derrame, infarto, insuficiência respiratória, por complicar ao máximo situação. A princípio as pessoas acham que não tem a ver com a poluição, mas tem sim. Existe um aumento de mortalidade pelas doenças cardiocirculatórias, além das doenças respiratórias durante este período.

MidiaNews – Como a fuligem e o gás carbônico agem no corpo humano?

Clóvis Botelho – Os gases já são tóxicos, irritativos e eles fazem uma queimadura na via aérea. O material particulado, pó, poeira, que se aderem e vão para o pulmão irritam também, porém junto desse material particulado vem a fuligem, que cai nas varandas, dentro de casa. Esse material, na verdade, é o carbono negro. E esse carbono é jogado no ar e pode ficar até uma semana circulando.

Às vezes pode até não haver as fumaças, mas existe a fuligem. As grandes partículas se depositam no chão, porém as pequenas ficam no ar e continuam irritando as vias aéreas.

Imagina um pulmão, que para fazer seu trabalho precisa de umidade, temperatura e qualidade do ar adequados. E isso não é ofertado, o pulmão trabalha mais e execício extra pode chegar à exaustão. Toda vez que você força um sistema, uma máquina, um organismo ao máximo do trabalho dele, você suplanta a capacidade dele de se defender, e isso acontece com o pulmão. Nosso aparelho respiratória é feito para trabalhar com a umidade 60% ou mais, temperatura em torno 36ºC e o ar limpo. Se você coloca muito para filtrar, o pulmão trabalha muito e ocorre o desgaste. E, além dele, causa a lesão.

MidiaNews – Essa má qualidade do ar pode agravar sintomas da Covid, já que se trata de uma doença que também atinge os pulmões?

Clóvis Botelho – Com toda a certeza, qualquer virose respiratória pode piorar. Primeiro você tendo a sua via aérea já comprometida, inflamada, a aderência e a multiplicação do vírus é maior, poque você não tem nenhuma defesa, ela já está toda deteriorada. Então o vírus entra e se agrava. É o mesmo que ocorre com o fumante. Ele também sente mais o impacto do novo coronavírus, porque já tem a área inflamada. O diabético, o obeso também. Então você pode nos aplicar nesta situação, porque estamos todos doentes, estamos com a mucosa respiratória toda inflamada. Quer dizer que nosso mecanismo de defesa se perdeu pela infamação provocada pela poluição.

E por outro lado, há outro agravante, pois os sintomas iniciais tanto da inflamação pela poluição, quanto pela virose são os mesmos: tosse, catarro, mal estar discreto. Então como as pessoas vão identificar se é da poluição ou o vírus que está chegando? E isto pode propiciar um atraso no diagnóstico de quem está com o coronavírus. Nesta situação uma coisa potencializa e agrava a outra.

MidiaNews – É possível que o tempo esfumaçado eleve as chances de se contrair a Covid?

Clóvis Botelho – Com certeza, aumenta muito, porque não há mecanismo de defesa nenhum. Você pode ter entrado em contato com uma carga viral pequena e seu organismo pode se defender, por isso nem todos adoecem. No entanto, se eu não tenho essa defesa, se está tudo inflamado pela fumaça, eu vou facilitar a entrada desse vírus.

MidiaNews – O que a pessoa deve fazer quando acorda, abre a janela e se depara com tanta quantidade de fumaça? Fechar a casa é a melhor solução? Ou em certos dias não há o que fazer?

Clóvis Botelho – É muito difícil. O principal é ter a consciência para não fazer queimadas. Mas se existe essa situação, é necessário que a pessoa se afaste do foco de incêndio, se possível, porque quanto mais próximo do fogo maior é a inalação do material irritativo.

Se você estiver em um ambiente bastante esfumaçado, a máscara também é uma opção para filtrar um pouco o ar. Outra coisa é cuidar-se. A pessoa precisa se alimentar bem, hidratar-se muito, dormir o necessário, evitar o excesso de álcool, etc… Esses são cuidados com a saúde que neste período a pessoa precisa ter redobrado.

MidiaNews – Umidificar o ambiente ajuda a combater os danos das queimadas ou serve apenas para combater o tempo seco?

Clóvis Botelho – Ajuda. A sensação é agradável, porém o efeito orgânico não é tão bom quanto a gente imagina. Em média uma pessoa de 60 quilos precisa tomar no mínimo 2 litros de água. E, neste momento, com tudo ressecado, todos os órgãos estão trabalhando mais. Então é preciso hidratar-se mais e, se possível, ficar em ambientes umidificados.

Cada um faz aquilo que pode fazer, molhar o quintal com mangueira, bacia com água, colocar soro fisiológico no nariz, mas o principal é beber água, porque a melhor hidratação é de dentro para fora.

MidiaNews – Pode explicar como ocorre a infecção dos pulmões em pacientes Covid?

Clóvis Botelho – A entrada do vírus geralmente é pelas mucosas respiratórias e via aérea superior, boca, garganta, nariz, etc. A Covid-19 se adere às células da mucosa respiratória e se multiplica e desenvolve no pulmão, depois ganha a corrente sanguínea e se esparrama para todo organismo.

O vírus agride todo o organismo, ele causa primeira irritação na via aérea superior, dando rinite, sinusite, bronquite, dentre outras inflamações comuns a todas as viroses, mas no pulmão ele tem um terreno propício para crescer e desenvolver pneumonias graves. Em evolução de uma semana tem casos que mais de 70% do pulmão já foi acometido.

No entanto, isso depende de cada pessoa, é uma característica do indivíduo o vírus progredir mais ou menos, também depende da carga viral que o paciente foi exposto, da situação do estado imunitário dele, se tem doenças e outros diversos fatores.

Ontem eu atendi uma paciente com 78 anos, com 50% do pulmão comprometido que não precisou ser hospitalizada e se tratou em casa. Depois do 15º dia ela já estava ótima, sem precisar tomar esses remédios malucos do kit Covid, que é um absurdo e autoridades defendem e propagam esses remédios sem comprovação científica nenhuma.

O melhor remédio é a prevenção, porém se a pessoa se contaminou é necessário tratar as consequências e o nosso organismo vai eliminar o vírus com os anticorpos.

MidiaNews – Recentemente o governador Mauro Mendes e o presidente da Assembleia Eduardo Botelho se curaram da Covid e poucos dias depois apresentaram problemas nos pulmões, com o governador tendo inclusive que se internar. O que explica esse tipo de situação?

Clóvis Botelho – Cerca de 10% a 15% das pessoas com casos leves e de 30% a 40% das pessoas que são hospitalizadas perduram com os sintomas do novo coronavírus por até 90 dias. É uma doença que deixa sequelas que a pessoa segue sentindo cansaço, falta de ar, prostração e cansaço exagerado pelo desgaste nos músculos.

Essa é a síndrome pós Covid-19. Então, vencendo a pandemia, nós vamos ter muitos pacientes sequelados pelo coronavírus. Os casos mais graves são de fibrose pulmonar, que são as lesões causadas pela inflamção intensa que, dependendo da extensão e profundidade, deixam cicatrizes grosseiras e problemas para o resto da vida.

MidiaNews – Por que muitas pessoas precisam fazer fisioterapia por bastante tempo depois de ter a Covid?

Clóvis Botelho –  casos em que a lesão no pulmão foi tão grave que deixou marcas, como queimaduras em cada local que o vírus cresceu e agrediu. E fica com sequelas. A maioria das pessoas tem um cansaço, uma exaustão muscular e a fisioterapia é para tratar e fortalecer novamente o músculo.

Quando você estimula o músculo, ele regenera mais fácil, por isso existe a possibilidade do paciente, ao fazer a fisioterapia muscular ou respiratória, aumentar número de fibras musculares, o nível de mitocôndrias, a força e isso é extremamente importante.

MidiaNews – Essa mudança brusca na temperatura piora a situação das fumaças?

Clóvis Botelho – Piora. Porque quando vem a frente fria, é como se fosse uma tampa de gelo da nuvem baixa e dificulta a dispersão do material poluente. Se o frio chega sem chuva ou vento, aumenta a concentração de material particulado e de gases tóxicos.

Em Cuiabá nós vivemos em uma baixada, em uma depressão. E quando vem a frente fria, ocorre isso, a massa da nuvem prende os poluentes aéreos na cidade e o ar vai ficar pior. Além disso, as pessoas se aglomeram em ambientes fechados para fugir do frio e a transmissão das viroses aumenta, porque não há a ventilação. É preciso desligar o ar-condicionado, abrir janelas e portas e deixar o ar circular.

É também sempre importante lembrar dos cuidados redobrados com idosos, crianças e pessoas que têm doenças relacionadas ao pulmão.

Fonte: Jornal MídiaNews

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